quarta-feira, 2 de julho de 2008

Boas perguntas sobre nós e os espaços públicos, por Roberto Da Matta: "Quem não quer o melhor, o mais rico e o mais belo para sua família? Para seus filhos e netos? Quem não morreria no lugar de um filho? Quem não distribuiria toda a sua fortuna, ou o que fez de mais valioso, para ver vivo um filho que, em vez de estar dormindo na sua cama, no seu quarto, dorme o sono da eternidade num sepulcro, em meio a um desolado e impessoal cemitério, onde ? a despeito de jazigos e covas rasas ? as regras valem para todos? (...) Como enfrentar a ?luta? e a ?guerra? demandadas pelo universo moderno e igualitário das cidades ? essa ?rua? dos assaltos, dos atropelamentos, dos descasos, do salve-se quem puder que nos transforma em inferiores e ?ninguéns? ? quando fomos criados e treinados a viver para a ?casa? com a ?mamãe? nos dando comida na boca e só servindo o jantar quando estivermos com fome? Como conciliar uma cidadania igualitária que na rua nos nivela e inferioriza com uma superpessoalidade que, em casa, diz que somos especiais? O que fazer quando descobrimos que na rua somos ilustres desconhecidos e que, nesse espaço que é de todos, a regra é o salve-se quem puder, porque ainda não aprendemos a respeitar o que a todos pertence? Como realizar isso ? sussurra-me o espírito de Gilberto Freyre ? se fomos uma sociedade de senhores e escravos, o paradigma da vida digna sendo dado não na massa de negros que eram animais e máquinas nas ruas, mas nos sobrados de onde saía o som de uma valsa de Chopin? Como abraçar uma prática de igualdade individual, num sistema ordenado por desigualdades entre casa e famílias? Como disciplinar com humanidade pessoas de pensamento aristocrático, que se pensam como especiais, pilotando essas máquinas poderosas chamadas automóveis, num espaço absolutamente igual para todos, como é o caso de nossas ruas e avenidas? Não seria a pressa diabólica e agressiva na rua a revelação inconsciente do quanto cada um de nós é importante em nossas casas? Não seria essa velocidade que mata e destrói, corroendo nossa liberdade, um aviso de que não sabemos competir porque projetamos nossas identidades da casa na rua e, com isso, perdemos de vista o padrão igualitário que é a norma na rua? O que acontece quando saímos do mundo pessoal e hierarquizado da casa e caímos no anonimato das ruas, onde todos são iguais perante suas máquinas e sinais? Não é nessa ausência de percepção entre o gigantesco fosso que divide esses mundos que jaz a tragédia onde perdemos nossos filhos motorizados porque jamais pensamos nos outros motoristas como filhos? Quando é que vamos transformar nossas cidades em casa?"

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